Se você tem TDAH e sente que vive “adiando a vida”, eu quero começar por uma coisa bem direta: nem sempre isso é preguiça. Muitas vezes é um mix de dificuldade de iniciar, sensação de sobrecarga, medo de errar, distrações que puxam você pelo braço e… pronto: a tarefa fica para depois. De novo.
Eu trabalho com TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) e, no atendimento de adultos com TDAH, a procrastinação aparece quase como um “sintoma invisível” que organiza toda a rotina. Não é só deixar uma coisa para amanhã. É como isso afeta autoestima, trabalho, relacionamentos e até saúde.
E antes que você pense “tá, mas eu já sei disso”, deixa eu te fazer uma pergunta simples: se você realmente acreditasse que é possível mudar esse padrão, você faria o quê hoje? Pois é. Vamos por partes.

O que é procrastinação (de verdade) e por que ela gruda tanto no TDAH
Procrastinação não é apenas “não fazer”. Na prática, é um comportamento de adiar uma ação apesar de saber que isso vai trazer prejuízo. Só que ela não vem sozinha. Ela costuma vir com:
- alívio imediato (“ufa, depois eu faço”)
- culpa logo em seguida (“de novo eu fiz isso…”)
- sensação de incapacidade (“não dou conta”)
- e mais adiamento, porque a tarefa agora parece maior
No TDAH, isso ganha força por alguns motivos bem específicos: funções executivas (planejamento, iniciar, manter foco, concluir) podem falhar, principalmente quando a tarefa é chata, longa, abstrata ou sem recompensa imediata.
Em outras palavras: o cérebro com TDAH não é “fraco”. Ele é muito sensível ao interesse, ao estímulo e ao prazo. O problema é que a vida adulta não espera o “interesse aparecer”.
Procrastinação no TDAH: o ciclo que ninguém vê
Eu gosto de explicar esse ciclo como uma sequência bem típica:
Você pensa na tarefa → sente um peso → tenta começar → trava → foge para algo mais fácil (celular, qualquer coisa) → sente alívio → vem culpa → a tarefa cresce → você evita mais.
E a parte mais cruel é que, com o tempo, a pessoa começa a transformar isso em identidade:
“Eu sou assim.”
“Eu sempre estrago tudo.”
“Eu só funciono sob pressão.”
Na TCC, a gente chama atenção para isso porque pensamentos automáticos como esses viram combustível para o mesmo comportamento. E, sim, dá para quebrar.
(Olha, eu ia escrever “não é fácil”, mas deixa eu corrigir: não é mágico. Fácil ou difícil vai depender do método e da consistência.)
Por que a procrastinação impacta tanto quem tem TDAH
A procrastinação no TDAH não afeta só produtividade. Ela afeta saúde mental.
1) Autoestima vai sendo comida pelas bordas
Quando você promete para si mesmo que vai fazer e não faz, o cérebro registra como “quebra de confiança”. Pequena, diária, repetida. E isso vai virando:
- autocrítica
- vergonha
- sensação de estar sempre devendo
- comparação com outras pessoas
E aí a pessoa tenta compensar com mais controle, mais exigência, mais “tenho que”. Adivinha? Isso costuma travar mais.
2) Ansiedade e TDAH fazem uma parceria perigosa
Tem gente que procrastina por desorganização, mas tem muita procrastinação que é evitação emocional: evitar desconforto, medo, tédio, insegurança.
No TDAH, quando a mente já é acelerada, a ansiedade pode virar um “motor”: a pessoa só começa quando a pressão é tão alta que parece impossível não fazer. Funciona? Funciona. Mas cobra um preço alto.
3) Procrastinação atrapalha tratamento (inclusive terapia)
Sim. Adultos com TDAH podem procrastinar até coisas que ajudam: rotina de sono, exercícios, organização, leitura, tarefas da terapia… É comum. E não é falta de vontade.
É por isso que, na prática clínica, faz diferença ter um plano bem simples e bem testável.

